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Queridos,
O Almanaque da Copa é feito pelo exército de um homem só, com muito carinho, muita dedicação e também muito suor. São horas e horas de pesquisa e escrita todos os dias.
Se você vem gostando do trabalho, por favor, ajude mais gente a conhecer. Viralizar é mais difícil quando a ideia são textos longos, mas quem realmente gosta de ler sobre futebol e de boas histórias pode curtir.
A cada dia, até a véspera da Copa, serão dois guias: o Guia Histórico e o Guia de Origens. Até o momento, sete textos de cada guia (e 14 seleções de cada) já estão no ar.
Bora fortalecer? =)
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Está no ar o Boletim Final, #34, de 19 de julho de 2026: almanaquedacopa2026.substack…
- Rodri controlou a final e determinou a identidade da Espanha, dominante para ser campeã
- Ferran Torres se grava como o talismã da segunda estrela a ser aplaudido na Espanha
- Não houve outra campeã do mundo que sofresse tão pouco na defesa quanto a Espanha de 2026
- Luis de la Fuente e o êxito das relações tecidas por anos a fio
- O bi eleva a Espanha, com os feitos da seleção cada vez mais condizentes à história de seu futebol
- As lágrimas se repetiram, mas dez anos separaram uma vida para Messi em Nova Jersey
- Scaloni saiu de cena como um personagem que valorizou o lado humano da Copa
- Sem o protagonismo, Lamine Yamal ofereceu as melhores cenas pós-créditos
Rodri tinha 14 anos quando a Espanha conquistou a Copa do Mundo pela primeira vez, em 2010. Porém, o adolescente estava bem longe de Madri e não pôde viver a festa de dentro. Ele passava férias nos Estados Unidos, mais especificamente em Connecticut, em um acampamento na floresta. Precisou implorar aos monitores para assistir à final num mini laptop, através de um streaming pirata. E os coleguinhas não entenderam nada quando ele saiu correndo igual a um maluco ao redor de um lago, comemorando o gol de Andrés Iniesta. Dezesseis anos depois, ele foi o centro das atenções em uma final de Mundial nos EUA, novamente vencida pela Espanha.
Lamine Yamal chegou para sua primeira Copa do Mundo como potencial estrela. Saiu como campeão, muito para um garoto de 19 anos, mas distante de seu futebol encantador. Anotar apenas um gol, e contra a frágil Arábia Saudita, é pouco para o tamanho de seu talento. O que não significa que foi um desastre – pelo contrário, o jovem tentou chamar a responsabilidade e influenciou o jogo ofensivo da Espanha, mesmo abaixo de sua melhor forma física e errando muito na tomada de decisões. Seu primeiro Mundial precisará ser colocado sob perspectivas quando relembrado. Porque, afinal, também teve holofotes.
Durante a fase de grupos, Yamal esboçou uma reação para a Espanha ao sair do banco no empate contra Cabo Verde e precisou de 45 minutos para maltratar a Arábia Saudita, mas jogou mal contra o Uruguai. Quando chegaram os mata-matas, muitas vezes a Roja pendeu para o lado direito e o camisa 19 não deixou de criar. Parou nos goleiros, mas fez boas jogadas e abriu espaço para os companheiros, em especial Pedro Porro. Construiu o primeiro gol contra a Bélgica e sofreu o pênalti do primeiro contra a França.
Ainda assim, aguardava-se o jogo com a assinatura do prodígio. A final em Nova Jersey foi a última oportunidade. E não foi suficiente. Como em outras ocasiões, Yamal não se omitiu. Só não encaixou o lance fatal, em parte por erros de execução, em outras por méritos dos adversários. Parou duas vezes em Dibu Martínez, inclusive numa cobrança de falta aos 53 do segundo tempo. Em outro bom lance, Ferran Torres não aproveitou seu cruzamento. E quando a entrada de Nico Williams equilibrou as ações pela esquerda, faltou o substituto perceber melhor o companheiro. No fim, nem fez falta. O lance do gol surgiu numa bola em que Yamal atraiu dois marcadores e tocou, dando espaço ao cruzamento para a área.
E como dizer que não foi uma Copa favorável para Yamal, se ele levantou a taça? Após o apito final, as câmeras o procuraram. Comandou a festa ao lado do inseparável Nico Williams. Consolou Lionel Messi, num fraterno abraço naquele que, quase duas décadas antes, tinha lhe dado banho ainda bebê. E viu o irmãozinho Keyne, uma das revelações deste Mundial fora das quatro linhas, mais uma vez roubar a cena com a taça. Esta edição rendeu mais cortes do garotinho do que do irmão mais velho. Mas, aos 19 anos, Yamal segue com o relógio a seu favor.
Lionel Scaloni conseguiu dar um olhar genuinamente humano para um ambiente tão glamourizado como a Copa do Mundo. A emoção do treinador da Argentina em tantos momentos durante a competição, do afeto demonstrado nas entrevistas à falta de afetação nas reações à beira do campo, soava até paradoxal para o mar de vaidades ao seu redor. E, em sua despedida do Mundial, após a derrota na decisão, o argentino permaneceu tocante: às lágrimas, indicou que esta pode ter sido sua última competição pela Albiceleste, com contrato até dezembro.
Quando muita gente esperava por um figurão na seleção em 2018, Scaloni virou uma solução emergencial sobre quem a própria federação não tinha certeza, após a hecatombe com Jorge Sampaoli na Rússia. O ex-lateral conseguiu transformar o ambiente olhando nos olhos dos jogadores, mas também os fazendo atuar como time. A Copa de 2022 marcou o ápice de uma equipe que amadureceu e soube lidar com os percalços durante a competição, se aprimorando a partir das decisões de seu treinador.
O trabalho em 2026 foi muito mais difícil para Scaloni, ele mesmo admitiu. A gratidão pareceu reger algumas de suas escolhas e, por mais que o senso de camaradagem prevalecesse nos vestiários, o time não se encaixou em campo. O treinador até ofereceu respiros temporários e não se furtou a colocar o time no ataque quando a ocasião pedia, além de se beneficiar com a maré favorável. Continuou se emocionando, à flor da pele, com a equipe que não desistia.
Na final, todavia, Scaloni viu tudo dar errado. Sua escalação não funcionou. Do outro lado, enfrentava um adversário muito melhor formatado. As lesões, sobretudo dos zagueiros, ainda minaram suas escolhas e limitaram a correção dos problemas com as substituições. Foi uma Argentina perdida nos nervos e totalmente incapaz de finalizar, por mais que de alguma forma sobrevivesse, com a falta de contundência da Espanha. Em alguma hora a sorte iria virar as costas, o que aconteceu no segundo tempo da prorrogação.
Scaloni ainda teve calma para conter uma briga dos jogadores ao apito final, antes de receber sua medalha de prata. Aos prantos na coletiva, sentiu a dor da derrota, mas ainda vendo méritos de chegar tão longe. Seu lugar é singular, e não só pelos resultados em Copas, com um título e um vice. Scaloni é uma terceira via do futebol argentino, por décadas às turras entre menottistas e bilardistas. É uma outra face, com a qual é possível se identificar, mesmo sem torcer para a Albiceleste. Tem a humanidade da qual o futebol deveria estar repleto, por lhe ser inerente, mas geralmente se vê em falta.
O Metlife Stadium era o mesmo que, há dez anos, marcou o ponto mais baixo da carreira de Lionel Messi pela seleção argentina. A final da Copa América de 2016 teve pênalti perdido pelo camisa 10 e, aos 29 anos, a decisão precoce de se aposentar da Albiceleste. Uma década depois, aos 39 anos, o craque voltou para disputar uma final no mesmo estádio, e de Copa do Mundo. Se o desfecho rende outra vez lágrimas amargas pela derrota, ele também conclui uma reviravolta. Naquela que é provavelmente sua despedida das grandes competições, Messi sai muito maior do futebol de seleções.
Parece até que foi em outra vida que Messi recebia os questionamentos “por não se sentir argentino” ou por “não render pela seleção”. As decepções e os seguidos vices geravam cobranças imensas sobre o craque que não fazia pela Albiceleste o que se via em Barcelona. A Copa América de 2021 encerrou o jejum. A Copa do Mundo de 2022 forjou o salvador, aquele que finalmente levou o troféu de volta à Argentina. E depois de mais uma conquista na Copa América de 2024, o Mundial de 2026 confirmou (e até extrapolou) tudo aquilo que o camisa 10 se tornou para os argentinos. Alguém capaz de se colocar em pé de igualdade com Diego Maradona. Alguém sem muitos poréns sobre o rótulo de melhor jogador do século.
Porque o Messi da Copa do Mundo de 2026 foi, individualmente, até melhor do que sua versão de 2022. Foi mais completo, mais consistente e mais decisivo. No Catar, o camisa 10 teve um time muito mais funcional ao seu redor, com bons coadjuvantes. Na América do Norte, em tantos momentos teve que carregar a equipe inteira nas costas. Começou o torneio como artilheiro, virou depois armador, teve lampejos como o velho ponta. Acumulou milagres em uma seleção que não merecia, mas avançava com épico atrás de épico.
Contra a Espanha na final, a Argentina encontrou o primeiro time que a travou por completo. Que cortou as linhas de transmissão para Messi. O craque, desgastado rodada após rodada, mal apareceu ao longo dos 120 minutos. Ainda assim, diante de tamanha superioridade espanhola, a Albiceleste só não era dada como morta por sua causa. E quase causou problemas nos dez minutos finais da prorrogação.
Mesmo com seu nome gritado pelas arquibancadas após o revés, Messi chorou ao final do jogo, e não só pela segunda final de Copa perdida na carreira ou pela chance do tetra que se esvaiu. Sua trajetória em alto nível, possivelmente, acabou ali. Ele fez o máximo para prorrogá-la nesta Copa. Foi bom para a Argentina enquanto o sonho durou. E só provou como, do alto de seus 39 anos, ele segue como um dos melhores – da atualidade, da história.
Até 2008, a Espanha era motivo de chacota no futebol de seleções. Seu único troféu com a equipe principal tinha sido o longínquo título da Euro 1964. Em Copas do Mundo, nunca tinha ido além da quarta colocação em 1950, num histórico bastante aquém da relevância de seus clubes. A era de Luis Aragonés e Vicente del Bosque marcou um ponto de virada, com o inédito Mundial de 2010 e duas Eurocopas, mas em feitos bastante centrados em uma geração. O bicampeonato mundial em 2026, somado à Euro 2024, oferece uma nova estatura aos espanhóis.
Não dá para negar que ainda falta à Espanha certa regularidade em seus resultados na Copa do Mundo. Depois do título em 2010, a Roja emendou uma queda na fase de grupos e outras duas nas oitavas de final. Mas, apesar da distância de 16 anos entre as taças, é possível traçar uma continuidade das ideias, apesar da mudança total de geração. Há uma linhagem da seleção espanhola. Os dois troféus colocam os ibéricos na mesma prateleira de Uruguai e França. Agora, à frente da Inglaterra.
A Eurocopa também elevou o status da Espanha. A Roja se tornou a maior campeã do continente em 2024, com seu quarto título, desempatando com a Alemanha. Sobra como maior campeã do século no torneio, com três troféus, quando nenhum outro vizinho levou mais do que um. Já na Copa do Mundo, os espanhóis igualmente se tornam a primeira equipe com duas conquistas neste século.
E é interessante notar como a Espanha sempre tratou o Mundial de 2010 como algo muito maior, a despeito de sua coleção de títulos na Euro. O bicampeonato em 2026 talvez seja até mais valorizado. A outra geração podia ser mais badalada, mas esta teve vitórias contra adversários mais pesados e riscos mínimos na reta final. Se antes os clubes espanhóis soavam descomunais para a sala de troféus da seleção, agora a Roja possui um tamanho condizente ao que sugere esta história. La Liga, por tanto tempo conhecida como palco de estrelas internacionais, se consolidou cada vez mais como um campeonato formador. E isso sem dúvidas auxiliou a seleção.
A Espanha bicampeã do mundo é fruto de um projeto de futebol. Uma seleção formada a partir das categorias de base, com vários jogadores que se conhecem desde garotos e um estilo de jogo bem definido. Entretanto, a reunião desses elementos não é a fórmula garantida do sucesso. Depois de três Copas ruins, a Roja dependeu de um treinador que servisse de amálgama ao conjunto. Não tem como falar sobre as conquistas da seleção sem destacar o papel do técnico Luis de la Fuente. Depois do título da Euro 2024, o treinador leva sua maior taça. Montou uma equipe bem treinada, através de relações tecidas por anos a fio e de um trabalho construído desde o sub-19.
Lateral esquerdo do Athletic Bilbao bicampeão espanhol nos anos 1980, De la Fuente pôde aprender bastante em um dos maiores celeiros do país. Sua formação como técnico passa pela base basca, onde trabalhou de 2005 a 2011. Quando saiu, só durou 11 partidas à frente do Alavés na segunda divisão. Sua história mudou mesmo a partir de 2013, quando assumiu a seleção sub-19 da Espanha. Ali, entrou em contato com um processo de formação bastante estruturado.
O objetivo da base é a formação de jogadores, não necessariamente os resultados. Mas, quando os troféus vêm, eles sinalizam gerações promissoras e muitas vezes também projetos bem alinhados. De la Fuente conquistou o Europeu Sub-19 em 2015, o Sub-21 em 2019 e levou a prata olímpica em Tóquio 2020. Aqueles times reuniam dez atletas que estiveram na Copa de 2026, fora outros que passaram em diferentes momentos por suas mãos.
Quando a Espanha promoveu De la Fuente para dirigir a seleção principal a partir de 2023, confiou em seus méritos na casa. Também escolheu um caminho diferente do tomado com seus antecessores, Julen Lopetegui e Luis Enrique, de passagens turbulentas. O perfil do comandante, curiosamente, se aproximava muito mais do antigo campeão do mundo, Vicente del Bosque: ótimo na gestão de atletas e bom na comunicação, além de currículo com vasta experiência em categorias de base – Del Bosque trabalhou por 15 anos no setor do Real Madrid, antes de fazer seu nome à frente do time principal.
De la Fuente aproveitou pilares antigos, mas deixou suas próprias marcas. Faturou uma Liga das Nações logo nos primeiros meses, em 2023. E é evidente que o time campeão da Euro 2024 é uma evolução do que se viu na Copa de 2022 com Luis Enrique. Não era enfadonho na posse e tinha mais recursos no ataque, com mais individualidades, se beneficiando das ascensões de Lamine Yamal e Nico Williams. Sem ter os talentos tão afiados fisicamente no Mundial de 2026, o técnico mostrou que não era dependente só dos prodígios e voltou a recorrer mais ao controle. Moldou uma equipe que não cedeu espaços e que evoluiu nos mata-matas, diante das travas na fase de grupos.
De la Fuente, sobretudo, teve o elenco em suas mãos. Fica mais fácil quando conhece boa parte dos jogadores há uma década, desde adolescentes, e auxiliou em suas evoluções. A Espanha rodou suas peças sem que ninguém criasse caso e várias vezes melhorou a partir das alterações do treinador, seja para ajustar o 11 inicial ou para impulsionar o time após as substituições. Se é uma Espanha também com poréns, que demorou a engrenar nesta Copa, acabou sendo a melhor equipe nas partidas grandes. Jogou como um time, não à base de estrelas, o que é mais fácil quando o técnico lida com o mesmo grupo há tanto tempo. É um trabalho de longo prazo.
A Espanha de 2026 é a campeã do mundo que menos gols sofreu em sua campanha vitoriosa: somente um, nas quartas de final contra a Bélgica. É absurdo pensar que, mesmo com o aumento para oito partidas, a Roja acabou superando os recordes anteriores da França de 1998, da Itália de 2006 e da Espanha de 2010. E mais impressionante é que, no geral, os espanhóis sequer sofreram – finalizações, ameaças, sustos, o que fosse. Se defesas ganham campeonatos, esta tem os dez dedos impressos na taça, em méritos que não se concentram só nos defensores.
A segurança da Espanha parte do sistema como um todo. O controle de bola no meio-campo, com passes precisos e o time bem postado, reduz os riscos. A Roja mal cedeu contra-ataques ao longo do Mundial, apesar de enfrentar mais adversários voltados a isso. Quando precisou se defender, a recomposição e as coberturas dos espanhóis também beiraram a perfeição. Além disso, o entendimento no encaixe das linhas favoreceu. O jogo contra a França é o melhor exemplo. Quando não estava pressionando a saída de bola, os espanhóis protegeram muito bem sua área e não deram espaços.
O jogador que melhor simboliza a solidez da Espanha é Pau Cubarsí. Eleito o melhor jovem do Mundial, com todos os méritos, também esteve entre os melhores zagueiros do torneio. Curiosamente, o único gol sofrido saiu num cruzamento em cima dele. O que não reduz o destaque pelo tempo de bola perfeito, as divididas firmes e a inteligência na construção. Entendeu-se muito bem com Aymeric Laporte, outro que foi bem na campanha, embora mais suscetível aos erros.
A Espanha ainda teve os dois melhores laterais da Copa. E, além de fecharem bem seu setor, Pedro Porro e Marc Cucurella não deixaram de dar opções ao ataque. Eles se beneficiaram do sistema, assim como o tornaram mais eficaz. Por fim, Unai Simón quebrou a invencibilidade histórica de minutos sem sofrer gols no torneio e recebeu a Luva de Ouro, mas não é que o goleiro trabalhou tanto. Realizou somente nove defesas em toda a Copa, quantidade menor que a marca de Dibu Martínez apenas na final. Seu principal papel esteve em coordenar movimentos e, especialmente, antecipar saídas nas costas da zaga. Não foi só um nome, mas todo um sistema extremamente confiável.
Rodri não é um jogador daquilo que costuma ser visto como “espetáculo”. O meio-campista é aquele que pensa e controla o jogo. E, por ser tão dominante em suas características, pode ser considerado exatamente um jogador espetacular. A Espanha se consagra bicampeã do mundo a partir da sua voz de comando, num time com seus traços: sem dar espetáculo, mas assombrosa pela forma como controla os jogos. A superioridade imensa que teve nos duelos mais difíceis, a semifinal e a final, se explica pelo trabalho do camisa 16. Foi capitão, protagonista e vencedor da Bola de Ouro de melhor do torneio.
A Espanha cresceu na Copa do Mundo junto com Rodri. Desde a conquista da Eurocopa, o volante sofreu com os problemas físicos. Atingiu novamente seu melhor justo com a seleção, em pleno Mundial. De uma fase de grupos morna, a Roja foi se tornando cada vez mais senhora das partidas. A excelente forma do capitão se tornou indiscutível. Mandou no meio-campo contra qualquer adversário. Fez uma final soberba contra a Argentina, presente em todos os cantos. Distribuiu as cartas com autoridade e garantiu a imposição espanhola. Não à toa, a dificuldade do time em administrar a vantagem no final era explicada por sua ausência, substituído por cansaço.
A Espanha de 2026 é o time de Rodri. Com o elenco brilhante de 2010, cheio de craques sobretudo no meio-campo, não dava para dizer que aquela Roja campeã mundial tinha um dono. O mesmo vale para o grupo campeão da Euro 2024, quando Rodri até ganhou o prêmio de melhor jogador, mas existia debate pela forma como vários contribuíram. Desta vez, não. A identidade dos espanhóis no bicampeonato mundial se concentra no jogo do volante, sem que outros talentos se sobressaíssem tanto.
A Bola de Ouro da Copa entregue para Rodri se explica por essa preponderância. Do ponto de vista individual, todos os outros três semifinalistas tinham fortes candidatos, até mais espetaculares. Porém, além de fazer o torneio de sua vida, o espanhol também foi a grande estrela do time campeão. Diferentemente de outras ocasiões recentes, a Fifa decidiu premiar quem terminou com a taça. O volante retrata a excelência daquilo que deu certo na equipe de Luis de la Fuente. É isso que o brilho de seu troféu reflete.
Andrés Iniesta teve uma primazia em sua carreira: ser aplaudido em qualquer estádio da Espanha que jogasse, inclusive de clubes rivais. Por mais espetacular que fosse o meio-campista, a honraria se devia muito mais ao gol que valeu o primeiro título mundial da Roja, em 2010. Ferran Torres é outro tipo de jogador, conhecido por ser um curinga. Entretanto, é bem capaz que o atacante seja agraciado com o mesmo prazer. Aos 26 anos, o camisa 7 muda a sua vida em 19 de julho de 2026. É o autor do gol, também na prorrogação, que leva os espanhóis pela segunda vez ao topo do planeta.
A estante de Ferran Torres inclui dois troféus da Premier League pelo Manchester City e três de La Liga pelo Barcelona, coleção respeitável para a sua idade. A cria do Valencia, todavia, sempre foi um jogador mais de composição de elenco do que um titular absoluto. Chegou a lidar com cobranças por isso, a ponto de melhorar seu rendimento após recorrer a um psicólogo. E é neste sentido que a seleção da Espanha parece mesmo ser o time de sua vida, onde mantém boa média de 25 gols em 65 partidas. Guarda alguns de seus momentos mais marcantes, desde as categorias de base.
Ferran conquistou o Europeu Sub-17 e o Sub-19 pela seleção, este último com dois gols na final. O atacante chegou ao elenco principal com Luis Enrique e, logo de cara, teve uma atuação arrebatadora nos 6 a 0 sobre a Alemanha em 2020. Desde então, foi um jogador útil em qualquer posição que entrasse no ataque. Serviu como um bom coadjuvante na Euro 2020 e na Copa de 2022 – nesta, com dois gols contra a Costa Rica. Conhecido de Luis de la Fuente desde a base, continuou como um homem de confiança, sem aparecer tanto no título da Euro 2024. Longe de ser brilhante, mantinha seu moral pela entrega e pela energia que dá ao time, a ponto de usar a braçadeira de capitão em amistosos.
Titular apenas contra Cabo Verde, Ferran Torres seguiu como bom reserva na sequência da Copa de 2026. Entrou dando novo fôlego ao time em diversas partidas e, contra Portugal, a assistência do gol da classificação foi sua. Combinava intensidade, agressividade e capacidade de atuar de diferentes maneiras. Neste sentido, sua participação contra a Argentina na final ajudou bastante, gerando algumas das melhores chances do time a partir de sua entrada. Terminou como o predestinado, num chute firme que botou a segunda estrela no peito da Espanha. O talismã a sempre ser recordado.
Real Madrid: Alfredo Di Stéfano
O jogador argentino que mais impactou o futebol espanhol é Di Stéfano. Talvez a dimensão dos clubes espanhóis sequer fosse tão grande sem a transformação que promoveu no Real Madrid a partir de sua chegada, em 1953. A Flecha Loira não foi o primeiro argentino do clube: quatro passaram antes dele, incluindo o atacante Roque Olsen, com quem compartilhou sucessos. Entretanto, nada comparável à revolução que Di Stéfano proporcionou. Sua chegada ganhou ares de incidente diplomático, com uma disputa entre Real Madrid e Barcelona. Os merengues venceram a queda de braço e ganharam uma estrela para lotar seu recém-inaugurado estádio. Em 11 anos pelo Madrid, Di Stéfano conquistou oito vezes La Liga e os cinco primeiros títulos da Champions – dois deles sob as ordens do compatriota Luis Carniglia, isso sem esquecer da presença de companheiros como Héctor Rial e Rogelio Domínguez. Virou a alma do clube, por sua liderança e pelo estilo de jogo como um “todo-campista”. Cinco vezes artilheiro de La Liga, Don Alfredo é o quarto maior artilheiro do clube, com 308 gols em 396 jogos. Também empresta seu nome ao estádio secundário dos madridistas. Após defender a seleção da Argentina em 1947, disputou 31 jogos pela Espanha a partir de 1957, reserva na Copa de 1962. Encerrou a carreira no Espanyol e treinou diversos clubes, inclusive conquistando o campeonato nacional pelo Valencia. Entre seus principais herdeiros no Real Madrid, Fernando Redondo e Ángel Di María brilharam em títulos da Champions, enquanto Jorge Valdano combinou troféus como jogador e como técnico.
Mallorca: Ariel Ibagaza
Camisa 10 da Argentina na conquista do Mundial Sub-20 em 1995, Ariel Ibagaza não teve muitas oportunidades na seleção principal, mas fez seu nome em La Liga. Revelado pelo Lanús, foi levado pelo técnico Héctor Cúper ao Mallorca em 1998. E estrelou anos áureos dos baleares, honrando a 10 como um armador de qualidade técnica. Ibagaza fez parte de campanhas marcantes pelo clube, como uma terceira colocação em La Liga, o vice na Recopa Europeia e a conquista da Copa do Rei. Permaneceu nas Ilhas Baleares até 2003, quando assinou com o Atlético de Madrid, mas voltou para uma passagem mais breve entre 2006 e 2008. Também jogou pelo Villarreal. Ao todo, somou 245 partidas e 30 gols pelos maiorquinos. Na era dourada, tinha a companhia de compatriotas como o goleiro Carlos Roa e o zagueiro Gustavo Siviero, ambos seus colegas no Lanús. Depois vieram outros como o goleiro Léo Franco e o lateral Jonás Gutiérrez.
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